“Era um pássaro e era uma menina. Um pássaro de árvore de Natal que tinha perdido a mola e a vassoura, brilhante, do rabo.
E uma menina, sonhadora e solitária, que falava com as
flores e sabia o coração das coisas.
Como o pássaro não tinha voltado a entrar na caixa das bolas e das grinaldas prateadas,
ficado por feiura ao abandono, a menina levara-o para o seu quarto. Nessa
noite, aconchegou-o num gorro de lã, que virou em
jeito de ninho, e lá o deixou com o biquinho de fora, para que pudesse respirar a fofidão das sombras e bebesse, pela manhã, o nascimento
da luz.
O pássaro conservava o seu branco lunar, prateado e vidrento, e uma cor
caramelada que se repetia no bico e nas asas. Só lhe faltava um
rabo. E a menina deu-se, por tarefa, procurar-lho.
Ao outro dia, mal se levantou, pôs-se em campo e, depois de buscas
aturadas por cantos e recantos, encontrou uma peninha fofa dum chapéu de
palhaço e um feixe de hastes longas que dormiam num antigo baú. Misturada a peninha arfada, sopro de respiração verde e musguenta, às hastes flexíveis, como ervas
tenras de primavera, mas dum vermelho palpitante e sanguíneo, o efeito era surpreendente! Tinha o que precisava.
Com muito carinho, a menina tirou do ninho o seu protegido e com fita
adesiva, colou- lhe o novo e sumptuoso rabo.
Magicamente, o pássaro transformou-se. Deviam ser assim as aves do paraíso. Eram com certeza. O corpo lunar recolhia, agora, todos os reflexos da
luz da manhã, clara e devolvia-os, numa brita lantejoulada, de arco-íris.
E a menina pôs-se a amá-lo (...) para sempre.”
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